Mamãe.

Eu ainda sou frágil, apesar da avançada idade. Nós somos frágeis. Nós precisamos que você venha nos tapar na madrugada, quando o frio quiser penetrar no corpo manso e frágil.  Precisamos que você traga o pão quentinho para o café. Precisamos ter para onde voltar quando o mundo quiser tombar tudo sobre as nossas cabeças, precisamos de um lugar para chorar baixinho e ter a certeza de que as nossas palavras não serão usadas contra nós mesmos. Precisamos de alguém para nos ligar no meio da tarde e perguntar como estamos.  Precisamos de alguém que possamos ligar a qualquer hora e contar nossas vitórias, sem ter medo que a pessoa do outro lado da linha nos inveje e nos mande vibrações negativas. Ontem eu acordei atrasada, perdi o ônibus, deixei o arroz queimar, acabei esquecendo de colocar o lixo pra fora e o chuveiro estragou sozinho. Não há qualquer outra pessoa no mundo capaz de substituir esse olhar terno que tu tens quando vê que algo deu errado. Mas também não há filho que consiga voar sem asas e acho que nós ainda precisamos ficar de baixo das suas. Eu sei que já é hora de crescer, mas eu não quero. Crescer dói e se crescer significa ficar longe de ti, eu quero menos ainda do que queria antes. Todos nós sentiremos falta das suas broncas por termos deixado pra fazer o dever de casa tarde da noite. Sentiremos falta do tempero secreto que deixava a refeição mais gostosa do que qualquer comida de restaurante. Sentiremos falta do beijo de boa noite e do abraço caloroso de bom dia. Sentiremos falta só de lembrar das noites que passamos na casa das amigas, e você nos enviava aquela mensagem de boa noite, dizendo que já estava com saudades. Em muitas situações, eu até podia ouvir teu pensamento dizendo: “não cresçam porque o mundo lá fora é tão complicado, e eu quero mantê-los quentinho aqui dentro. Não quero que rompam ingenuidade de vocês, por mais que isso signifique amadurecer.” Mãe, sabemos que todos nós quando éramos pequenos queríamos crescer de pressa, porque ser adulto parecia legal, mas mudamos de ideia. Sabemos também que queríamos morar sozinhos porque morar longe das broncas da mãe seria um barato. Mas depois de muito tempo, não deu mais para segurarmos a saudade do colo, bateu aquela saudade da sua voz dizendo que tudo vai dar certo, sentimos falta da sua proteção. Porque só te visitar não é suficiente, a gente quer ficar perto e fingir que nunca tentou levantar voo antes.

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